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São várias as mãos que fazem o textaculos. Independente, ácido, subversivo e informativo. Deformamos conceitos com o intuito de mostrar coisas novas. Convido-os a fazer parte dessa organização do caos contextualizado. Com sua leitura ou escrevendo.

Yearly Archives: 2010

poesia monta em tecnologia para correr o sertão

Cacique e a tecnologia.

O aposentado Luiz Alves de Souza, mais conhecido como Cordelista Cacique, nunca imaginou ler algo sobre o processo biológico da cadeia alimentar. No entanto, sentiu na pele a brutal dinâmica da natureza, em que os seres vivos, com determinados níveis de função no planeta, comem uns aos outros para contribuir com o equilíbrio do ecossistema. Assim, vendo seus cordéis feridos na selva do mercado, Seu Luiz transformou-se num verdadeiro predador e cuidou logo em devorar a tecnologia.

Aos 69 anos, todas as manhãs, em Serra Talhada, interior de Pernambuco, ele toma as ruas da cidade com um carro de mão, uma caixa de som de dez polegadas, um aparelho de DVD, um pen drive e cerca de 100 folhetos de literatura de cordel.

Cacique percorre, em média, cinco quilômetros por dia e nem pensa em parar. “Pois eu vi que a coisa tava ligeira demais”, explicou-se apontando, com a cabeça, para a parafernália eletrônica. Ele conta que seus concorrentes já haviam desistido da briga com a tecnologia. A maioria mudou de ramo. Mas, apaixonado pela literatura de cordel, decidiu seguir em frente se aliando ao inimigo. E como faz para ligar isso tudo, Seu Luiz? “Ah, tem que ‘bulir’ sem medo”, responde sorridente.

Curiosamente, tudo começou quando migrou para a cidade grande, São Paulo, no final da década de 1980. Um dia, caminhando pelas ruas, folheou alguns cordéis numa banca de revistas. Foi quando iluminou a ideia de ganhar a vida vendendo rima. Empolgado, Luiz Alves de Souza entrou em contato com a editora responsável pelas tiragens, a Luzeiro, para comercializar a ideia no interior de Pernambuco.

Num belo dia regressava o sertanejo, com um vazio no peito por ter visto seus sonhos diluídos na rotina da metrópole, mas cheio de poesia nas mãos, ansioso por um recomeço. “Nesse dia cheguei a comprar mais de seis mil versos”, reconta.

No primeiro mês, assim que chegou a Serra Talhada, vendeu mil folhetos. “Ah, naquele tempo o povo ainda gostava.” Seu arroubo empresarial deu tão certo que o levou, durante cinco anos, a viver só do comércio de rimas. Hoje, também comercia, além de literatura de cordel, CDs com cantorias de aboio. Prático, ele faz assim: pluga o pen drive num aparelho eletrônico e “pronto, toca a vida toda.”

Com tal estratégia, até diriam que o aposentado agregou valor ao folheto de cordel, conjugando música e literatura no seu carro de duas rodas. No entanto, parece sem fim a labuta de Seu Luiz, pois em sua casa ainda resiste um oceano de folhetos, que não seca desde os anos de 1980 e tudo fica bem guardado em caixas de papelão espalhadas no chão de sua sala.

A chave

Cordelista Cacique acredita que a população de Serra Talhada perdeu o gosto pela poesia. E compara com seu tempo de criança: “O povo matava um boi para ficar a noite toda comendo e escutando cordel até o amanhecer”. A explicação desse desgosto poético, segundo afirma, se encontra na ausência de incentivo à leitura. “O povo não está sendo mais educado para ler nada.”

Em 2008, a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, encomendada pelo Instituto Pró-Livro, divulgou dados sobre como os brasileiros encaram as páginas. De 172 milhões de pessoas letradas (92% da população total), 77 milhões delas foram classificadas como não-leitores. Os que se dizem leitores (95 milhões) leem 1,3 livro em 365 dias. Nos Estados Unidos, esse número sobe para 11, anualmente. Segundo a pesquisa, o que falta é a descoberta, a chave que liga subitamente o sujeito à leitura.

No caso de Cacique, essa chave girou quando criança. O menino Luiz Alves tinha largado a escola para ajudar nas despesas de casa e trabalhava como entregador de pão, quando uma das funcionárias da padaria declamou alguns versos. “Ave Maria, achei aquilo bonito demais”, sorri. E decidiu que ia aprender a ler literatura de cordel sozinho. Começou a visitar feiras e praças para ouvir poetas e cantadores declamarem histórias de amor e aventura. Primeiro, decorava cada palavra recitada, depois, cada verso, as estrofes, até construir a ligação com a palavra escrita.

Hoje, Seu Luiz Alves orgulha-se de si. É capaz de declamar vários folhetos. Tem na boca a rima da vida e um dente de prata que reluz toda vez que sorri. Quando anda, as pernas fazem dois arcos, ameaçando desistir de sustentar o corpo. Mede cerca de 1,70 metro e possui, na pele e nos olhos, a escuridão da noite. Tem o apelido Cacique, não sabe a razão. Mas adora ser chamado pelo título de mandachuva tribal. Na parede da sala, dependura imagens de santos católicos junto à foto de um bebê, três calendários e uma moldura com o desenho dele mesmo, mais jovem.

Um senhor vaidoso. Certa vez pagou cinquenta reais para virar estrela de cinema. Em 2007, o documentarista argentino Alejandro Garcia, radicado em Serra Talhada, foi contratado por Cacique para produzir o vídeo Minha Vida Passo a Passo, com mais de uma hora de duração. Nas imagens, Cacique mais conversa da vida dos outros que da sua. Hoje, entre versos e aboios, vende aquilo que deveria ser uma biografia.

Seu Luiz Alves, o Cordelista Cacique.

Muita gente nem duvida do seu tino empreendedor. Com o capital de giro do comércio áudio-literário ambulante, investiu até na padronização de um uniforme de trabalho, que lhe custou quatro reais a costura (pois a camisa já tinha). Na altura do busto, estampou “Cordelista Cacique”, que se pode ler em cor verde-limão sobre o azul-marinho da camiseta, e pôs em baixo a foto de um rapaz garboso, no melhor estilo Marlon Brando. “Sou eu com 20 anos.” Atrás da roupa, mandou grafar: “Não pretendo morrer novo /quero envelhecer também /pra sentir qual o sabor /que o pão da velhice tem”.

O folheto que mais vendeu até hoje foi O Romance do Pavão Misterioso, que já foi tema de novela e carrega polêmica em sua autoria, pois ainda não se confirma com certeza se foi escrito por José Camelo de Melo Resende ou João Melquíades Ferreira da Silva, poetas paraibanos que viveram no final do século 19. Seu Luiz nem liga para tamanha indefinição, quer mesmo é vender literatura popular, e cobra três reais pelo livreto. “Com esse aí eu quase enriquei”, brinca. Um pouco caro se comparado ao preço do mercado, que custa, em média, um real. E ele sabe disso. No entanto, na selva tecnológica, Luiz Alves de Souza tenta ser o predador, não a vítima. Garante que, mesmo intermitente, o voo do pavão ainda o mantém vivo na cadeia alimentar.

Cordel tem origem portuguesa

O folheto de cordel chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses e chamou-se assim pelo fato de ser comercializado em barbantes ou cordões. No entanto, estudiosos no assunto afirmam que, entre a população nordestina, essa expressão literária adquiriu outro significado tanto no nome, como no sentido e na forma de venda.

No Nordeste, tornou-se filha legítima das cantorias e pelejas transmitidas oralmente, enquanto o folheto português foi fruto do surgimento da imprensa, a partir de 1450. Além disso, até meados da década de 1960, nesta região, o livreto rimado era conhecido apenas como verso, peleja ou folheto de feira. Só depois que um grupo brasileiro de pesquisadores da Fundação Casa de Rui Barbosa achou por bem canonizar o projeto literário à maneira lusitana.

A literatura de cordel significa a transposição para a forma escrita de poemas, canções, aventuras e epopeias recitadas em voz alta. É uma das expressões artísticas mais ricas de nossa literatura e símbolo da cultura popular.

fotos  Giovanni Alves Duarte

texto Giovanni Alves Duarte

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entrar no metrô é uma aventura

A sensação é de não estar sozinho no mundo.

Milhares de pessoas estão ao meu lado, um exército pronto para a batalha, todos unidos por um mesmo ideal. De repente, ouço a linda voz da razão: “A faixa amarela é a sua segurança, não a ultrapasse”.

As portas do metrô se abrem e a multidão entra atropelando até o ar. A moça de vermelho quase cai, a cabeça de um engravatado passa a milímetros de uma barra de ferro, um casal só se desgruda porque eu, sem querer, me ajeito entre eles. Uma senhora grita, ofendida: “Cadê o respeito, meu filho!”. Todos olham para trás, fingindo não ouvir.

Meus braços estão lá em cima, imóveis. Já sinto um gel de cabelo me sujando a camisa. A moça de vermelho coloca uma música eletrônica no celular; ela dança a cabeça: é impossível mexer o corpo. A senhora ofendida levanta a sobrancelha, continua procurando o respeito.

Ainda divido o casal. Através de mim, eles enviam sorrisos e paixões reprimidas. Meus pés doem. Na primeira parada, entra um menino de quatro anos, que vai parar lá perto do meu joelho. O senso comum diz que não cabe mais ninguém ali. As pessoas do lado de fora discordam: entram mais dois infelizes.

O engravatado tenta pegar uma Veja, mas não consegue. O menino começa a chutar minha perna, talvez eu seja uma bola. A garota de vermelho desiste da música eletrônica, coloca Roberto Carlos, O divã. A senhora ofendida abre um sorriso. Ouvindo o tema romântico, o casal ameaça uma briga.

Na segunda parada, desce o engravatado. Pelo vidro, eu o vejo pegar a Veja e sorrir. Feliz, o garoto decide pisar no meu pé. A moça de vermelho e a senhora ofendida agora conversam sobre os anos sessenta. Formigam os meus braços lá em cima. Quero descer e mudar para o Acre. Lá, não há metrô.

Discutindo o passado, o casal vai embora. Entra vendedor de amendoim: “É um real, senhora, e da melhor qualidade”. O menino se interessa e para de me atormentar. A moça de vermelho e a senhora ofendida conversam sobre a Zibia Gasparetto. Eu penso nessas trilhas de aventura: em São Paulo, passamos por elas diariamente e ninguém percebe.

Um segurança se aproxima e toma o amendoim do cara. O menino chora, com a raiva e o desejo escorrendo pelo rosto. A senhora ofendida grita, relembrando o respeito devido ao vendedor, aos trabalhadores, aos aposentados, aos estudantes, aos cronistas e às crianças que gostam de amendoim. O segurança ignora.

Em seguida, a voz da razão diz: “Estação Sé, desembarque pelo lado esquerdo do trem”. Eu, o menino, a senhora ofendida, a moça de vermelho e o cara do amendoim descemos, satisfeitos. Agora, só me resta sair e encarar outra aventura: o ônibus. Olha ele vindo ali!

texto Leandro Machado

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uma arvore, um milagre

Em São Paulo, há uma arvore entre o numero 63 e o 65 da Avenida Cásper Líbero. Com sua copa verde traz alegria para muita gente que espera a passagem do ônibus, protegendo-os com suas folhas espessas de um verde escuro, do sol escaldante, e, às vezes da chuva de dias loucos muito comuns em Sampa. Quem é de Sampa sabe do que estou falando.

Todos os dias se aglomeram pessoas embaixo dela, não se dão conta que os jornais nunca noticiaram o sensacional caso desta arvore e embora esta noticia não tenha saído em nenhuma primeira pagina vou fazer com que saia aqui no textaculos.

Acontece que todo esse milagre só foi possível através de uma discórdia, de uma briga. O que provavelmente pouca gente sabe.

Antigamente havia o dono do hotel do numero 65 e o dono da papelaria do numero 63. Hoje o hotel esta fechado e a papelaria deu espaço à concorrência. Acontece que os dois proprietários não se bicavam e o dono do hotel, muito engenhoso, resolveu plantar uma arvore na frente da papelaria, para de alguma forma fechar a frente do comercio e dificultar o negocio de seu desafeto.

Como não podia simplesmente plantar uma arvore na frente do estabelecimento do outro  por causa da lei, que poderia reverter sua esperteza a favor de seu adversário, calculou que seria melhor plantar em seu próprio terreno. De posse das ferramentas de um pedreiro conhecido, mediu milimetricamente o espaço entre os dois ambientes de forma que ficassem separados apenas por uma linha. Quando a justiça chegou, acionada pelo comerciante da papelaria, não pode fazer nada, já que em tese a arvore não estava invadindo nenhuma propriedade.

Se hoje você passar em frente ao numero 65 da Cásper Líbero, nada o lembrará do clima de guerra que existiu no tempo desses dois, exceto o fato da arvore ser plantada e que agora a paz reina absoluta. Um milagre de folhagens que protegem com sua beleza as pessoas que permanecem naquela calçada.

texto textaculos

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um estilo diferente

Quem fica falando que lê apenas um estilo, um determinado escritor, está do mesmo lado daqueles que escrevem apenas uma formula e nunca experimentam uma situação diferente, sempre repetindo um recurso de modelos pré-definidos. Quem se diverte, pesquisa, estuda, escreve, não pode seguir só a mesma linha, a não ser que seja o Dan Brown.

Por isso descarto a possibilidade do aconchego e por estas e outras é que me maravilho quando descubro uma obra-prima, o texto que não foi copiado inspirado em nenhum outro.

Já passou um ano que tenho estado a querer escrever sobre Markus Zusak. Seu livro A menina que roubava livros é magnificente. Agora é certo que essa ideia vai sair no papel.

Para começo, descrevo a sensação que tive ao ler este livro, enfatizar como é possível crê-se facilmente na narradora, a própria morte, naturalmente tratando dela como se fosse gente.

A morte amava falar de si mesma, dizia que decididamente sabia ser animada, amável, agradável, afável e esses eram apenas os As e pedia encarecidamente para nunca pedirmos uma coisa dela, que fosse simpática, pois simpatia não tinha nada a ver com ela. Este era apenas um dos modos em que mostrava quem era, e ao contrario do que exigiu, a verdade é que nutrimos simpatia por sua narração, consequentemente por ela mesma desde o inicio. E para completar ainda teve a ousadia de dizer; quando a morte conta uma historia devemos parar para ler. Uma das razões que me fez comprar o livro.

Uma das coisas que me fez ficar na balança foi o fato de a menina ser uma ladra. Na minha imaginação, achava um gesto imperdoável mesmo sendo qual fosse o motivo, mas quando fui apresentado que na verdade ela roubava livros dos judeus antes de serem incinerados pelos nazistas, dei uma chance. Quando soube que havia escapado da morte algumas vezes deixando a própria estupefata, na qual de tão estupefata resolveu escrever ela mesma essa historia, pensei, é impossível deixar este livro fora de minha estante e abaixei a guarda.

Eu poderia ficar aqui falando horas e horas a respeito deste livro, mas de tanto falar em morte receio que fiquem com medo. Não é preciso, pois como disse, o livro é diferente, instigante e um prato cheio para quem sabe ler o que escrevem num estilo diferente. Aliás, como o é seu outro livro Eu Sou o Mensageiro no qual vou falar em breve.

texto textaculos

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água tônica, um café e um doce

Numa tarde fria, vindo da faculdade para minha casa, encontrei próximo ao metrô um café, que eu conheço de passagem, sem nunca ter entrado. Parei na porta, a atendente cumprimentou-me. Enquanto sentei a pequena distância do balcão, postou-se ao lado de mim, anotou o pedido, e saiu para trazer meu café.

Quando voltou, trouxe uma bandeja com uma água tônica, um café e um doce. A verdade é que eu só vim para tomar o café da tarde, pela primeira vez não soube o que fazer, para com esse gesto, esse costume da casa. Mais por vergonha de demonstrar em não saber, comecei a engolir de qualquer jeito, porque precisava sair depressa, não tanto, por causa de minha vergonha, mas por não conseguir reagir de maneira natural a surpresa daquela mudança de rotina.

Quem tem boca vai a Roma, e boca no meu caso é o dinheiro. Resolvi voltar no mesmo lugar e pedir outro café, antes porem, perguntar o modo certo de digerir, não aguentava mais a ansiedade de escutar esse segredo vindo da atendente, para mim alguém que era a pessoa certa que podia me acudir.

A atendente séria, fitou em mim os olhos, convidou-me a sentar. Quando voltou com a bandeja eu ainda estava tentando adivinhar o que ela ia agora dizer. Esta, risonha, foi logo dizendo que eu primeiro teria que beber a água tônica que era uma forma de limpar a boca para que eu possa saborear o gosto do café, depois do café como a boca naturalmente amarga por causa da bebida, teria que comer o doce.

Comecei mal e acabar bem era gratificante.

texto textaculos

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