Aconteceu de certa manhã numa feira do livro, um menino parar diante de uma barraca e se interessar por uma obra. Na capa havia estampado um pistoleiro se encolhendo com duas armas na mão. A capa o encantara e provavelmente por causa dessa magia o garoto chegaria ao final do livro e descobriria o prazer da leitura.
– Pai, compra esse livro pra mim!
O pai, bronco que era, olhou em volta e localizou a barraca de churrasquinho. Começou a babar e a movimentar a língua ligeiramente nos lábios. Aparentemente, antevendo o gosto da carne que aparecia na sua frente.
– Não seja bobo meu filho, com esse dinheiro, o melhor é a gente encher a barriga naquela barraca.
Quer dizer, o menino teve a inspiração do livro, o pai tosco a de encher a barriga. Até admito que ele não fez isso por ser mau, mas por ser bronco mesmo. E isso acontece todos os dias na vida de muitos filhos que são educados pelos “silenciosos” valores dos pais toscos e irresponsáveis.
Pobres crianças, quando são inspiradas para o ser, são levadas ao comer, ao encher a barriga. O único prazer que o pai rude mais conhece. O que era para ser uma bem-aventurança para o pai, essa fome de ler do filho, a única coisa que passava pela sua cabeça era o espetinho de carne…

