Esta história foi contada por um amigo do Ceará. E ele contou que a neta de 12 anos de seu avô apareceu grávida deixando aquela cidade de pouco menos de nove mil habitantes em pavorosa – afinal ela tinha apenas 12 anos e sem marido. Pediu que o avô lhe providenciasse todos os cuidados necessários para que fizesse um bom parto. Disse mais, disse que precisava ser acompanhada por uma enfermeira, e exigia uma vaga numa boa maternidade, queria fugir das complicações. Sobre o pai da criança que estava por nascer, disse que preferia deixar o assunto morrer.
Seu avô, uma alma caridosa, calmo e bondoso, contrariou todos os conselhos recebidos daquele povinho da cidade, num acesso de fúria retirou a cinta das calças e a mirou na parede. O estalo foi ensurdecedor. Disse, quase berrando, para todo mundo ouvir, que sua neta nada pedia pra ninguém e somente a ele cabia o direito de julgar o que tinha acontecido. Passou a mão na cintura da neta e disse que todo o apoio e cuidados necessários poderiam ser esperados da parte dele. Ele mesmo iria criar o bebê como se fosse seu filho. Que ela não se preocupasse com a língua do povo. Língua ferina.
O tempo passou. O bebê nasceu e nos anos seguintes mais outros. O discurso do velho e a apresentação teatral com a cinta eram repetidos indefinidamente como um show gratuito, grotesco, porém engraçado. Para encurtar a história, digamos que em 10 anos foram dez bisnetos, só que no décimo primeiro ano algo mudou.
Num acesso descontrolado de fúria, o velho puxou a cinta e a mirou, não na parede e sim no espinhaço da neta. O estalo foi ensurdecedor e o grito dela também.
– Olha aqui sua vadia. Ouça bem, se quiser bancar a parideira, que vá trabalhar e pagar por todos os seus caprichos, vaca, galinha! Se não tem o que fazer, vai trabalhar, vai criar seus filhos, vai ler um livro, porra.
Sua neta arrumou um emprego, as horas ociosas acabaram e nunca mais quis ter filhos.
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