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poesia monta em tecnologia para correr o sertão

Cacique e a tecnologia.

O aposentado Luiz Alves de Souza, mais conhecido como Cordelista Cacique, nunca imaginou ler algo sobre o processo biológico da cadeia alimentar. No entanto, sentiu na pele a brutal dinâmica da natureza, em que os seres vivos, com determinados níveis de função no planeta, comem uns aos outros para contribuir com o equilíbrio do ecossistema. Assim, vendo seus cordéis feridos na selva do mercado, Seu Luiz transformou-se num verdadeiro predador e cuidou logo em devorar a tecnologia.

Aos 69 anos, todas as manhãs, em Serra Talhada, interior de Pernambuco, ele toma as ruas da cidade com um carro de mão, uma caixa de som de dez polegadas, um aparelho de DVD, um pen drive e cerca de 100 folhetos de literatura de cordel.

Cacique percorre, em média, cinco quilômetros por dia e nem pensa em parar. “Pois eu vi que a coisa tava ligeira demais”, explicou-se apontando, com a cabeça, para a parafernália eletrônica. Ele conta que seus concorrentes já haviam desistido da briga com a tecnologia. A maioria mudou de ramo. Mas, apaixonado pela literatura de cordel, decidiu seguir em frente se aliando ao inimigo. E como faz para ligar isso tudo, Seu Luiz? “Ah, tem que ‘bulir’ sem medo”, responde sorridente.

Curiosamente, tudo começou quando migrou para a cidade grande, São Paulo, no final da década de 1980. Um dia, caminhando pelas ruas, folheou alguns cordéis numa banca de revistas. Foi quando iluminou a ideia de ganhar a vida vendendo rima. Empolgado, Luiz Alves de Souza entrou em contato com a editora responsável pelas tiragens, a Luzeiro, para comercializar a ideia no interior de Pernambuco.

Num belo dia regressava o sertanejo, com um vazio no peito por ter visto seus sonhos diluídos na rotina da metrópole, mas cheio de poesia nas mãos, ansioso por um recomeço. “Nesse dia cheguei a comprar mais de seis mil versos”, reconta.

No primeiro mês, assim que chegou a Serra Talhada, vendeu mil folhetos. “Ah, naquele tempo o povo ainda gostava.” Seu arroubo empresarial deu tão certo que o levou, durante cinco anos, a viver só do comércio de rimas. Hoje, também comercia, além de literatura de cordel, CDs com cantorias de aboio. Prático, ele faz assim: pluga o pen drive num aparelho eletrônico e “pronto, toca a vida toda.”

Com tal estratégia, até diriam que o aposentado agregou valor ao folheto de cordel, conjugando música e literatura no seu carro de duas rodas. No entanto, parece sem fim a labuta de Seu Luiz, pois em sua casa ainda resiste um oceano de folhetos, que não seca desde os anos de 1980 e tudo fica bem guardado em caixas de papelão espalhadas no chão de sua sala.

A chave

Cordelista Cacique acredita que a população de Serra Talhada perdeu o gosto pela poesia. E compara com seu tempo de criança: “O povo matava um boi para ficar a noite toda comendo e escutando cordel até o amanhecer”. A explicação desse desgosto poético, segundo afirma, se encontra na ausência de incentivo à leitura. “O povo não está sendo mais educado para ler nada.”

Em 2008, a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, encomendada pelo Instituto Pró-Livro, divulgou dados sobre como os brasileiros encaram as páginas. De 172 milhões de pessoas letradas (92% da população total), 77 milhões delas foram classificadas como não-leitores. Os que se dizem leitores (95 milhões) leem 1,3 livro em 365 dias. Nos Estados Unidos, esse número sobe para 11, anualmente. Segundo a pesquisa, o que falta é a descoberta, a chave que liga subitamente o sujeito à leitura.

No caso de Cacique, essa chave girou quando criança. O menino Luiz Alves tinha largado a escola para ajudar nas despesas de casa e trabalhava como entregador de pão, quando uma das funcionárias da padaria declamou alguns versos. “Ave Maria, achei aquilo bonito demais”, sorri. E decidiu que ia aprender a ler literatura de cordel sozinho. Começou a visitar feiras e praças para ouvir poetas e cantadores declamarem histórias de amor e aventura. Primeiro, decorava cada palavra recitada, depois, cada verso, as estrofes, até construir a ligação com a palavra escrita.

Hoje, Seu Luiz Alves orgulha-se de si. É capaz de declamar vários folhetos. Tem na boca a rima da vida e um dente de prata que reluz toda vez que sorri. Quando anda, as pernas fazem dois arcos, ameaçando desistir de sustentar o corpo. Mede cerca de 1,70 metro e possui, na pele e nos olhos, a escuridão da noite. Tem o apelido Cacique, não sabe a razão. Mas adora ser chamado pelo título de mandachuva tribal. Na parede da sala, dependura imagens de santos católicos junto à foto de um bebê, três calendários e uma moldura com o desenho dele mesmo, mais jovem.

Um senhor vaidoso. Certa vez pagou cinquenta reais para virar estrela de cinema. Em 2007, o documentarista argentino Alejandro Garcia, radicado em Serra Talhada, foi contratado por Cacique para produzir o vídeo Minha Vida Passo a Passo, com mais de uma hora de duração. Nas imagens, Cacique mais conversa da vida dos outros que da sua. Hoje, entre versos e aboios, vende aquilo que deveria ser uma biografia.

Seu Luiz Alves, o Cordelista Cacique.

Muita gente nem duvida do seu tino empreendedor. Com o capital de giro do comércio áudio-literário ambulante, investiu até na padronização de um uniforme de trabalho, que lhe custou quatro reais a costura (pois a camisa já tinha). Na altura do busto, estampou “Cordelista Cacique”, que se pode ler em cor verde-limão sobre o azul-marinho da camiseta, e pôs em baixo a foto de um rapaz garboso, no melhor estilo Marlon Brando. “Sou eu com 20 anos.” Atrás da roupa, mandou grafar: “Não pretendo morrer novo /quero envelhecer também /pra sentir qual o sabor /que o pão da velhice tem”.

O folheto que mais vendeu até hoje foi O Romance do Pavão Misterioso, que já foi tema de novela e carrega polêmica em sua autoria, pois ainda não se confirma com certeza se foi escrito por José Camelo de Melo Resende ou João Melquíades Ferreira da Silva, poetas paraibanos que viveram no final do século 19. Seu Luiz nem liga para tamanha indefinição, quer mesmo é vender literatura popular, e cobra três reais pelo livreto. “Com esse aí eu quase enriquei”, brinca. Um pouco caro se comparado ao preço do mercado, que custa, em média, um real. E ele sabe disso. No entanto, na selva tecnológica, Luiz Alves de Souza tenta ser o predador, não a vítima. Garante que, mesmo intermitente, o voo do pavão ainda o mantém vivo na cadeia alimentar.

Cordel tem origem portuguesa

O folheto de cordel chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses e chamou-se assim pelo fato de ser comercializado em barbantes ou cordões. No entanto, estudiosos no assunto afirmam que, entre a população nordestina, essa expressão literária adquiriu outro significado tanto no nome, como no sentido e na forma de venda.

No Nordeste, tornou-se filha legítima das cantorias e pelejas transmitidas oralmente, enquanto o folheto português foi fruto do surgimento da imprensa, a partir de 1450. Além disso, até meados da década de 1960, nesta região, o livreto rimado era conhecido apenas como verso, peleja ou folheto de feira. Só depois que um grupo brasileiro de pesquisadores da Fundação Casa de Rui Barbosa achou por bem canonizar o projeto literário à maneira lusitana.

A literatura de cordel significa a transposição para a forma escrita de poemas, canções, aventuras e epopeias recitadas em voz alta. É uma das expressões artísticas mais ricas de nossa literatura e símbolo da cultura popular.

fotos  Giovanni Alves Duarte

texto Giovanni Alves Duarte

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