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Seja Bem-Vindo!

São várias as mãos que fazem o textaculos. Independente, ácido, subversivo e informativo. Deformamos conceitos com o intuito de mostrar coisas novas. Convido-os a fazer parte dessa organização do caos contextualizado. Com sua leitura ou escrevendo.

Category Archives: Livros

um estilo diferente

Quem fica falando que lê apenas um estilo, um determinado escritor, está do mesmo lado daqueles que escrevem apenas uma formula e nunca experimentam uma situação diferente, sempre repetindo um recurso de modelos pré-definidos. Quem se diverte, pesquisa, estuda, escreve, não pode seguir só a mesma linha, a não ser que seja o Dan Brown.

Por isso descarto a possibilidade do aconchego e por estas e outras é que me maravilho quando descubro uma obra-prima, o texto que não foi copiado inspirado em nenhum outro.

Já passou um ano que tenho estado a querer escrever sobre Markus Zusak. Seu livro A menina que roubava livros é magnificente. Agora é certo que essa ideia vai sair no papel.

Para começo, descrevo a sensação que tive ao ler este livro, enfatizar como é possível crê-se facilmente na narradora, a própria morte, naturalmente tratando dela como se fosse gente.

A morte amava falar de si mesma, dizia que decididamente sabia ser animada, amável, agradável, afável e esses eram apenas os As e pedia encarecidamente para nunca pedirmos uma coisa dela, que fosse simpática, pois simpatia não tinha nada a ver com ela. Este era apenas um dos modos em que mostrava quem era, e ao contrario do que exigiu, a verdade é que nutrimos simpatia por sua narração, consequentemente por ela mesma desde o inicio. E para completar ainda teve a ousadia de dizer; quando a morte conta uma historia devemos parar para ler. Uma das razões que me fez comprar o livro.

Uma das coisas que me fez ficar na balança foi o fato de a menina ser uma ladra. Na minha imaginação, achava um gesto imperdoável mesmo sendo qual fosse o motivo, mas quando fui apresentado que na verdade ela roubava livros dos judeus antes de serem incinerados pelos nazistas, dei uma chance. Quando soube que havia escapado da morte algumas vezes deixando a própria estupefata, na qual de tão estupefata resolveu escrever ela mesma essa historia, pensei, é impossível deixar este livro fora de minha estante e abaixei a guarda.

Eu poderia ficar aqui falando horas e horas a respeito deste livro, mas de tanto falar em morte receio que fiquem com medo. Não é preciso, pois como disse, o livro é diferente, instigante e um prato cheio para quem sabe ler o que escrevem num estilo diferente. Aliás, como o é seu outro livro Eu Sou o Mensageiro no qual vou falar em breve.

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entre ônibus e bagagens, um microcosmo da cidade

O LIVRO AMARELO DO TERMINAL
de Vanessa Barbara
Editora: Cosac Naify, 2008, 254 págs.

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A correria da cidade, o amontoado de ônibus, um mundo gente que vai e vem, carrega bagagens, perde coisas tão inusitadas quanto uma dentadura, um banco de Kombi ou um braço mecânico. A rodoviária do Tietê, a segunda maior do mundo, reproduz a cidade de São Paulo. E é tão grandiosa quanto ela: abriga 61 empresas de ônibus com 331 linhas que atendem 611 localidades em todos os estados brasileiros, com exceção do Amazonas e do Acre,e mais quatro países sul-americanos (Uruguai, Paraguai, Argentina e Chile).

Por isso, conhecer esse terminal rodoviário é conhecer aspectos essenciais da vida da cidade e dos seus habitantes, dos migrantes que chegam cheios de esperança para se tornarem “paulistanos” ou dos que partem desiludidos com a cidade. “O Livro Amarelo do Terminal”, da jornalista Vanessa Barbara, desvenda não apenas os segredos desse terminal (não todos, porque o faturamento dos banheiros ainda é um dado guardado a sete chaves pelo administradores) mas as histórias dessa gente que chega, parte, espera.

Vanessa divide seu livro em 22 capítulos nos quais mostra a história do prédio inaugurado em 9 de maio de 1982, na avenida Cruzeiro do Sul, junto á estação Tietê do metrô; os segredos da administração, a vida de quem trabalha lá, dos motoristas e atendentes do balcão de informações; das responsáveis pela seção de achados e perdidos; e das pessoas que passam por lá.

O que impressiona, no primeiro momento, é a grandeza. Vanessa detalha o prédio, formado por dois terminais distintos (o terminal de embarque e o terminal de desembarque) mais os dois blocos de serviços localizados no andar superior.

Mas, essa descrição ganha vida quando Vanessa começa a mostrar as pessoas que movimentam o terminal. Ela passeia pelos terminais de embarque e desembarque e pelos dois blocos de serviço, anotando com sensibilidade histórias diversas. Mostra o trabalho das atendentes do balcão de informações, de coque, sombra nos olhos e lencinho no pescoço, prontas para dizer como chegar em qualquer lugar. Elas não falam inglês nem espanhol, mas atendem os estrangeiros na certeza de que, de uma forma ou de outra, acabam se entendendo. Mostra também o trabalho dos motoristas, das faxineiras dos banheiros com seu faturamento secreto, dos seguranças que tem ordens de impedir fotos ou reportagens desautorizadas dentro do terminal, carregadores, vendedores da loja de malas, pedintes e até do dono da voz dos auto-falantes da rodoviária.

As histórias do usuários são esclarecedoras. São lojistas do interior de São Paulo e de outros estados, que vêm a São Paulo fazer compras na 25 de março, gente que chega e
procura por parentes que deveriam buscá-los, jovens surfistas que dormem sobre suas pranchas enquanto esperam, estrangeiros que querem passear em Ilhabela. Histórias de
uma grande cidade, com gente que joga chicletes no chão e papel higiênico fora do lixo, pisa em salgadinhos, carrega malas e sacos pretos enormes, compara esnobe as condições do terminal com as condições oferecidas pelos terminais europeus. Tudo anotado e colocado no livro com um texto sensível, esclarecedor e coadjuvado por uma edição inovadora, com recortes de jornais, manchetes das revistas de fofocas expostas nas bancas de jornais do terminal, frases dos livros de auto-ajuda à venda etc. Enfim… um microcosmo da cidade.

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A Menina que Roubava Livros

Existem nichos históricos e temáticos da ficção que todos poderiam dizer que já foram mais do que explorados. Épicos medievais com dragões e magos não sobrevivem se não forem especialmente geniais ou clássicos do gênero, e acredito que Dan Brown já gastou até demais suas aventuras turísticas com um mistério como pano de fundo.

A Segunda Guerra mundial é um prato cheio para todo tipo de história real ou não, sejam dramas focados naquela que provavelmente é a maior tragédia da humanidade(falo do Holocausto, obviamente), visões da história sob diferentes pontos de vista, simples histórias de guerra ou mesmo apenas ambientação para algo completamente diferente, como o recente Bastardos Inglórios de Tarantino, que é pura ficção mas não menos impressionante.

E, no meio deste cenário que muitos dirão que já estava gasto antes do final do século XX chegar, A Menina que Roubava Livros de Markus Suzak foi uma obra que tocou meu coração com muita vontade.

O livro conta a história de vida de uma menina alemã que foi posta em um orfanato pela mãe e adotada por um casal, e daí a história segue contando sua trajetória, das pessoas que conheceu e como passou a adorar livros – a ponto, como o título indica, de roubá-los. E talvez o que há de mais interessante no livro é seu narrador: a própria Morte.

Em sua condição de ser imortal, o narrador retorna e adianta o tempo variadas vezes, e faz divagações em sua própria narrativa. Enfim, existe um sabor todo especial da escolha do narrador – que, a despeito de sua função, realmente se importa com a humanidade – e a história em si já é linda. Definitivamente saborosa.

Neste pano de fundo da expansão nazista pela alemanha e pela europa, assim como a reunião e eventual extermínio dos judeus nos campos de concentração, Liesel Meminger vive intensas relações com os Hubermann, sua família adotiva; Rudy Steiner, amigo na infância e mais tarde um romance velado; a mulher do prefeito; e, talvez o personagem que mais me cativou durante a história toda – embora seja um arquétipo previsível no cenário da história –, o lutador judeu Max, que em seu esconderijo chega a ter sonhos delirantes de lutar contra o próprio Hitler(que não é, a bem dizer, uma luta justa). Personagens intensos, bem escritos, cujas histórias com certeza também tocarão o leitor.

Não tenho muito mais a dizer a partir daqui. É um livro suave, com a quantidade certa de drama e que certamente não explora tanto seu cenário, o que é bom. O avanço do terror da guerra sobre o enredo é sutil e não cansa nem fica no caminho da história, pelo contrário, se funde a ela com perfeição. E, como disse antes, a história é linda, tocante e deliciosa, ótima para se apreciar a qualquer momento. Realmente, um livro de cabeceira.

Enfim, é um ótimo livro e eu o recomendo. Creio que ninguém vai se arrepender.

Korso Asclepius é crítico, blogueiro, artista e pelo visto perdeu até as proparoxítonas de tanta emoção.

Korso Asclepius

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Sherlock Holmes e as artes marciais

Todo mundo anda falando de Avatar, e Sherlock Holmes, uma joia de filme, acaba passando quase despercebido, o que é uma pena. O que eu queria comentar a respeito é uma certa dissonância que tenho visto nas (poucas) resenhas do filme que encontrei na imprensa, e que se referem ao filme como uma espécie de “releitura” do personagem, como se Holmes tivesse sido recriado como “super-herói” ou “herói de ação”.


Dissonância que mostra que os críticos talvez estejam familiarizados com os filmes anteriores do grande detetive, mas certamente não com os livros.

Porque o personagem de Conan Doyle era, afinal, um herói de ação: em O Signo dos Quatro, por exemplo, Holmes não só protagoniza uma excitante perseguição de lancha pelo Tâmisa à noite, como ainda é reconhecido por um ex-pugilista profissional, que se lembra de ter sido nocauteado por ele numa luta.

Além disso, em A Aventura da Casa Vazia, o detetive revela ser um mestre de “baritsu”, uma arte marcial japonesa cujo correspondente no mundo real é um certo mistério — a palavra parece ter sido cunhada por Conan Doyle ou a partir de “bartitsu” — uma versão de jiu-jitsu introduzida na Inglaterra em 1899 por um sujeito chamado Barton-Wright (“Barton”… “bartitsu”… sacou?) — ou de bujitsu, um termo genérico para artes marciais.

Holmes também é descrito por Watson como um exímio lutador com bastão, uma habilidade que salva a vida do detetive quando um bando de malandros de rua tenta atacá-lo em O Cliente Ilustre.

Além disso, é importante lembrar que o detetive, após travar luta corporal com o professor Moriarty em O Problema Final, escala as escarpas suíças com as mãos nuas, e se envolve numa peregrinação que o leva ao Tibete.

No cinema, no entanto, o personagem sempre havia sido interpretado por atores mais velhos — como Peter Cushing — e as limitações de orçamento e efeitos especiais impediam que esse lado de Holmes florescesse nas telas.

Ah, sim: o Sherlock do novo filme não “aposentou” a capa e xadrez e o chapéu de caçador: ele simplesmente nunca os usou (i.e., nunca foi descrito por Conan Doyle envergando esse tipo de traje). A capa inverness e o chapéu deerstalker são adições feitas pelo ilustrador original das histórias, Sidney Paget.

Por fim, Watson: ao contrário dos retratos cinematográficos anteriores, o doutor John H. Watson dos livros nunca foi um velhote paspalho. Ele entra na vida de Holmes ainda relativamente jovem, recém-dispensado do exército por ter se ferido na guerra. É não só um soldado treinado e homem de ação, como faz sucesso com as mulheres (Jude Law está bem no personagem quanto a isso!) e gosta de apostar em cavalos. Como no filme.

O filme em si trapaceia um bocado com o espectador — não é um mistério “fair play”, daqueles em que todas as pistas estão ao alcance do leitor/espectador mais atento — mas o enredo tem coerência, o que é mais do que se pode dizer de muito blockbuster por aí.

Enfim: foi necessário esperar que se passasse uma década inteira do século 21 para que o herói mais emblemático do 19 aparecesse por inteiro na tela.

Cretinas

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TREVANIAN E SUA OBRA POR LENODIAS

Escritores de sucesso não costumam furtar-se a uma oportunidade de aumentar a clientela. Mas quando um homem que se autodenomina Trevanian diz ser indigno de um autor promover seus livros, está falando sério. Ele é inflexível no que se refere a evitar publicidade, do mesmo modo que é inflexível quanto a ocultar sua identidade real.

shibumi

Por que esse escritor de coisas tão misteriosas como “The eiger sanction” e do best seller “Shibumi” é ele próprio tão misterioso?

”Duas razões: primeira, eu escrevo sob cinco nomes diferentes sobre diversos assuntos-teologia, direito, estética, cinema–, e quero manter meus leitores em grupos separados. Segunda, quero realmente ficar fora do negócio de promoção publicitária”, disse ele numa de suas raras entrevistas, por telefone.

Quando eu crescer quero ser que nem esse cara.

LenoDias

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